Meu nome é Fusca. Nasci em 1978. Tenho milhões de irmãos pelo mundo, mais velhos e mais novos. Fui feito com o maior carinho e todas minhas características foram fabricadas sob medida. Apesar da origem industrial, fui adotado pelos humanos. Já pertenci a várias famílias, sendo que meu primeiro e segundo donos não estão mais aqui na Terra. Os outros dois sequer se lembram de mim, nem sabem onde estou.
Hoje cheguei a uma nova residência. Um novo lar. Agora sou usado para transportar algumas tralhas. Pelo menos ainda sou útil.
Ao longo da vida, passei por todas as emoções que o ser humano pode ter ou sentir, sendo que estive presente em várias delas. Fui a hospitais, cemitérios, parques, clubes, escolas, empresas, restaurantes e festas. Fiz centenas de viagens para fora de São Paulo. Conheço inúmeros caminhos. Acompanhei adultos, jovens, idosos e crianças. Vi tudo acontecer. Vi a vida das pessoas passar enquanto a minha passava despercebida por elas.
E eu também nem percebi, fiquei velho, ultrapassado; mas sempre tive valor. Acredito ser imortal. As pessoas, eu sei que não são. Elas buscam de várias maneiras se manterem vivas. Assim como eu, também precisam trocar peças ao longo da vida. E chegam a um ponto que nem mesmo a substituição por outras novinhas trarão a salvação. Comigo é diferente. Enquanto me mantém funcionando e cuidam de mim, eu estou aqui. Como disse, acho que sou imortal.
Aliás, acho que só há uma maneira de eu morrer, como diversos colegas da mesma espécie ou gênero. E pensando bem, dessa mesma maneira ou humanos também morrem. Não de imediato, mas morrem aos poucos, ou tem o seu funcionamento prejudicado. Estou falando da solidão. Se me abandonarem, a doença da ferrugem começa a me consumir. E a tristeza também. Morro de medo da palavra “ferro-velho”. Para mim, ela tem o mesmo significado de “cemitério” para os humanos.
Com meus 32 anos de existência, minhas experiências se entrelaçam com as de um senhor lúcido. É difícil compreender como tempo passa, como tudo muda. Há algum tempo, eu era o mais desejado, o orgulho do proprietário. As pessoas me respeitavam demais. Agora sou visto - isso quando sou notado, como um acabado, um velho.
Por isso posso dizer que sei como cada humano, em cada fase da vida, se sente. Também pensava que jamais iria ficar velho, jamais iria ter problemas, jamais sofreria. Porém, a realidade é que esse dia irá chegar. Pelo menos para as pessoas de carne e osso. Mesmo sendo “abusado” pelo meu atual dono, não ligo. De um jeito ou de outro ele precisa de mim. E continuo, a cada dia, conhecendo e vivendo algo novo.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Como um Fusca Velho
Marcadores: jornalismo, Bruno César de Godoy
conhecimento,
FUSCA,
historia,
HISTORIA DO FUSCA,
HISTORIA SOBRE CARRO,
idoso,
respeito,
texto,
velho
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário